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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Para alternar com as neuras...

Agora que já cusquei tudo o que havia para cuscar e já consegui comentar, vou resumir-vos os meus últimos 30 (??) anos de vida. Não sou muito fã da escrita nem tenho veia poética; gosto mais de falar com os amigos "ao vivo e a cores".
Como se devem lembrar (ou não), em 1980 entrei para o ISEF de Lisboa (mais Cruz-Quebrada) para me licenciar em Educação Física. Infelizmente comecei a trabalhar assim que conclui o Bacharelato e a Licenciatura foi sendo adiada. Resultado? Deixei uma disciplina por fazer. E depois? Continuei a trabalhar, e muito. Sim, que esta vida de professor não é como a pintam. Tenho cá uma colecção de cargos.
Em 1987 casei com um colega do meu irmão (o Rui - também vivia em Faro). Em 1991 nasceu a minha primeira filha - a Maria - e em 1997 nasce a segunda - a Carolina. Vivemos em Massamá (para quem não sabe, é uma freguesia do concelho de Sintra). Durante alguns anos padeci de depressões - andei a toque de anti-depressivos, ansiolíticos (e até de hipnóticos), até que um dia disse: BASTA!! Inscrevi-me num ginásio; comecei a cuidar de mim e da minha auto-estima e até hoje tenho sido bem sucedida.
Agora que a Maria entrou para a Faculdade de Belas Artes, eu resolvi terminar a minha licenciatura. Este ano não estou a dar aulas. Concorri a professora bibliotecária, o que me permite gerir o meu horário de trabalho de forma a conseguir ir a algumas aulas na FMH (não confundir com FHM). Comecei esta semana. Vamos ver se aguento. Aturar tontos de 12, 13 ou 14 anos é uma coisa; aturar tontos de 18, 19 ou 20 já é mais dificíl. Fico em pânico quando penso que a minha reforma depende desta malta.
Com estes papéis todos - mãe, professora, estudante, dondoca de ginásio, mulher-a-dias, cozinheira - não tenho muito tempo para divagações. Nestes últimos dias dou comigo, muitas vezes, a pensar: hoje ainda não fui ao Mixta. Tenho que ir ver qual foi a última da São; o PP já terá postado mais alguma fotografia? E a Lena? Porque não me diz nada?


Deixo-vos duas fotografias actuais da família (ainda fica a faltar o gato). Verão de 2009 nos Pirinéus Franceses




sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

As minhas várias vidas

Parece-me bem que este blog anda um pouco deprimido/deprimente :)
Assim, para mudar o ambiente, vou eu tentar “apresentar-me” àqueles que comigo menos têm convivido desde os tempos em que me chamavam “Paulo Poeta” e também para os outros que comigo deixaram de conviver depois que me passaram a chamar PP – não de poeta, mas sim de Pescoço – em virtude de uma deformação congénita que me dá esta postura permanentemente erecta :)
Cá vai:

Terminado o liceu impunha-se pensar num curso superior e vai daí pensei que a Física Nuclear (!) era uma escolha gira e lá fui (acabando por ser colega do JJ, lembram-se dele?). Contudo, chegado a Lisboa este vosso amigo que até aí era muito certinho abriu os olhos para o mundo e para as gentes e vá de experimentar tudo! Como disse o Nélio, foram “anos de experiências e de testar limites”. Deu-me para começar a experimentar áreas artísticas como a literatura, a pintura e a música, desviando-me cada vez mais das ciências exactas, que como sabem não se fazem “com uma perna às costas”, pelo que comecei a chumbar, coisa que até aí ninguém julgaria que um dia pudesse acontecer ao menino certinho que era eu.
Uma das experiências que tive, unicamente para me desinibir um pouco, foi o teatro, num curso que frequentei com o Nélio e que haveria de vir a mudar a minha vida, sem que eu então disso tivesse consciência, pois que até aí eu não gostava nada de teatro.

Nesse mesmo ambiente “tresloucado” de Lisboa iniciei também a minha vida sexual e finalmente fui obrigado a reconhecer que a minha identidade sexual não era exactamente como vinha nos manuais sobre o assunto… Posto isto “soltei a franga” (sem muitas plumas) e vá de curtir até que… fiquei (muito) doente com uma hepatite B, e tive de voltar a casa dos pais onde fiquei acamado durante um ano. À minha volta as gentes olhavam para mim como se eu, então com 26 anos, tivesse os dias contados e eu mesmo acreditei que não ia chegar aos 30. Já com a sintomatologia quase desaparecida e farto de estar à espera da morte (não estou a exagerar) decidi-me então sair para a rua e tentar viver o que me restava. Fui então dar aulas e viver em Olhão durante um ano.
Tendo-me consciencializado de que a minha licenciatura incompleta em Ensino de Física (havia entretanto mudado ligeiramente de área) não me daria um grande futuro na carreira docente pensei então em voltar a estudar para acabar o curso, só que a grande Lisboa (que eu havia adorado, como o Nélio) já não me seduzia com o seu stress, que não seria indicado para a minha condição clínica de “ainda convalescente crónico”. De uma conversa com a Pino (que se havia tornado a mulher do Nélio) surgiu então a ideia de ir acabar o curso em Aveiro (cuja geografia é, de facto, muito parecida com a de Faro – embora o frio e o vento…).
Nessa linda cidade voltei então aos estudos, já não como estudante cabulante, mas sim como um adulto consciente e lá consegui acabar a Licenciatura em Ensino de Física e Química… 12 anos depois de a ter iniciado em Lisboa! (Não digam isto aos vossos filhos!) Dito isto gosto também de dizer que, para me redimir, já fiz entretanto dois Mestrados (sendo que no 2º não me dei ao trabalho de fazer a tese). Sendo eu professor vê-se assim que sou um “profissional” do sistema educativo :) não tendo saído da escola desde os 5 anos.
Em Aveiro envolvi-me no meio académico e fiz uma certa carreira como cantautor, sendo que uma das minhas músicas - “Barco de Aveiro” - acabou por se tornar (desculpem a imodéstia, mas é verdade) num hino da Universidade sendo inclusivamente executado – fiquei há pouco tempo a saber – nas cerimónias de entrega de diplomas (!). Quem quiser pode ouvir a música no YouTube escrevendo “Se eu fosse um barco de Aveiro”, quer interpretada por mim, quer interpretada por tunas universitárias. E chega de música, pois assim que voltei para o Algarve fechei (nem sei bem porquê) essa minha “carreira”.
Nessa mesma cidade voltei ao teatro (pela mão do Nélio, diga-se) e desde aí nunca mais larguei essa área que nos últimos anos se tornou a principal (em detrimento da Física e Química).
Terminado o curso, fiquei ainda uns anos em Aveiro tendo começado uma relação conjugal de 7 anos com uma pessoa que alguns de vós conhecem – só que nessa altura o casamento gay ainda não era legal :)
Entretanto Aveiro esgotara o seu interesse e pensei(pensámos) ir para… Macau – então à beira de passar para o controlo chinês. Só que a coisa não se concretizou e, quando dei por mim, em vez de ir para o outro lado do mundo, estava perto de casa, em Albufeira. Lá regressei, um pouco contrariado, ao Algarve e… já cá estou à 14 anos (que não me engano nas contas). Na verdade este clima não tem igual nesta parte do mundo e até se tem uma qualidade de vida superior à de uma grande cidade.
Entretanto “divorciei-me” e nos últimos 5 anos (mais coisa menos coisa) arranjei uma namorada, a Isabel, com quem conto partilhar os netos (ela tem dois filhos) e a terceira idade (cruzes canhoto!) que já ronda à distância.
A nível profissional sou actualmente professor de teatro na Esc. Sec. de Albufeira (da qual já faço parte da mobília) e trabalho também com a ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve), na maior parte das vezes como encenador.
E pronto! Assim sou eu, sempre oscilando entre interesses variados, como uma espécie de Fernando Pessoa – perdoe-se-me a comparação – com os seus múltiplos e antagónicos heterónimos – mas “uno na multiplicidade”.
(Como diz o Woody Allen, “uma vida sem amigos é como usar umas cuecas sem elástico”, motivo pelo qual aqui me expus.)
Beijos e abraços a todos

sábado, 16 de janeiro de 2010

um título qualquer

bem, então lá vai: uma tentativa de resumir o meu percurso de vida, ao sabor do teclado e do fluir das palavras.

tirei o curso de medicina em lisboa. não que eu quisesse muito ser médico, mas pareceu-me o melhor percurso de entre os disponíveis quando acabei o liceu. em lisboa, ao fim de pouco tempo, sentia-me lisboeta e, muito sinceramente, não pensava em regressar a faro. crescemos muito nestes anos da universidade, e são anos de experiências e de testar limites. pelo menos para mim foram. o curso, era uma coisa que eu ia fazendo enquanto descobria os lados mais luminosos e os mais negros da vida em liberdade, fora da casa dos pais. as noites lisboetas têm muitos 'perigos' e eu deixei-me fascinar por todos eles. queria ser artista, sempre quis ser músico, fiz teatro (eu e o paulo, com quem solidifiquei a amizade que levávamos de faro, fizemos juntos um curso ao longo de um ano, ele depois seguiu esse caminho), deambulei pela cidade com grupos de pessoas que pintavam, que escreviam, que faziam teatro. até que rapei o fundo ao tacho e muito daquilo deixou de fazer sentido. entretanto tinha-me apaixonado por uma jovem estudante de matemática em aveiro, que também era cá de faro embora só tivesse vindo para cá aos 15 anos e que muitos de vocês conhecem, e nos últimos tempos do curso já tinha marcado como próxima etapa ir para aveiro, viver uma vida a dois. casei-me com ela mesmo no final do meu curso e mudei-me de armas e bagagens para outra ria.
em aveiro fiz o meu estágio como médico e tirei a especialidade de patologia clínica (que é como quem diz medicina laboratorial) e nasceu o meu primeiro filho. fiz muitos bons amigos e envolvi-me com a comunidade universitária a que pertencia a minha mulher. voltei a fazer teatro com o grupo de teatro da universidade, iniciei-me na fotografia, continuei a fazer música. durante a especialidade fiz também estágios em coimbra e no porto, o que me levou a conhecer bastante bem estas cidades, e descobri que ser português tem no norte uma dimensão diferente da que tem no sul. descobri o paraíso do gerês, de que tenho imensas saudades, e o cheiro da terra húmida que não existe cá no algarve, nem em monchique. tornei-me aveirense, e nunca teria de lá saido se tivesse lá tido vaga no hospital. não tive e naqueles anos, ao fim de 6 meses de acabarmos a especialidade éramos desvinculados. quis o destino que de entre os hospitais que tinham vagas para patologistas clínicos, o de faro fosse aquele que me dava melhores perspectivas profissionais, as outras hipóteses eram torres novas e caldas da raínha. foi por isso que regressei a faro, não sem alguma relutância. tinha a sensação de que eu mudara muito mais do que a cidade, que eu já não era quem de cá tinha saído 12 anos antes.
e fui ficando, embora de vez em quando me dê novamente vontade de partir. em faro nasceu a minha filha, cimentámos, eu e a minha mulher, as nossas vidas profissionais, reaprendemos a conviver com a cidade e com as nossa famílias. os nosso filhos cresceram e decidimos ter mais um filho. nasceu o nosso segundo filho, com alguns problemas causados com por uma infecção que a minha mulher teve durante a gravidez. é surdo, tem paralisia cerebral e epilepsia. é fácil compreender que este foi um acontecimento que tranformou a nossa vida familiar e nos transformou a nós enquanto pessoas. os primeiros tempos foram muito difíceis, mas a vida tem o dom de continuar sempre em frente e hoje em dia comunicamos com ele em língua gestual, a epilepsia está razoavelmente bem controlada com medicamentos e ganhou a sua independência física, começou a andar aos 7 anos.
entretanto abandonei a música, deixei de tocar e compor e dediquei-me à fotografia, uma maneira diferente de comunicar e partilhar com os outros através da estética. ao longo dos anos tornei-me também um leitor compulsivo, da banda desenhada (uma paixão que nasceu em faro, quando comprava a revista tintin) aos romances e ensaios, leio de tudo, há sempre uma pilha de livras em cima da minha mesa de cabeceira a aguardar vez. cada vez vejo menos televisão e gosto mais da internet, pois sou menos manipulado pela máquina trucidante da publicidade e da lavagem cerebral normalizadora da sociedade.
cá em casa agora somos sete (quatro humanos, dois cães e um gato), por vezes oito, quando o mais velho vem de férias ou de fim-de-semana. os dias são gastos entre o trabalho e a família, os hobbies e as tarefas do dia-a-dia. continuo a gostar de viver e de experimentar tudo o que a vida tem para nos oferecer, o lado luminoso, mas também o lado negro, onde por vezes aprendemos muito, como dizem os anglossaxónicos: the whole picture.