A manhã foi muito difícil! Acordei
estupidamente cedo, depressa como fazia todos os dias e...desta vez com uma dor de cabeça tão imensa que já não cabia na almofada. Levantei-me, sabendo que nada tinha para fazer..."nada tinha para fazer?" que coisa tão estranha...que sensação de vazio a acompanhar um peso de cimento em cima da cabeça. Ressaca! "Quanto mais o tempo passa...mais hipóteses de ressaca". Mas esta era uma
estranheza que vinha do facto de me saber livre e agora com um mundo de coisas à frente...viver, curtir, ir ao
cinema, ao teatro, poder ir à música, que tão bom...
Sentei-me na cozinha...o vazio na cabeça. o betão na cabeça. nem sabia para onde me virar, as costas
doíam os olhos choravam, tinha três ou quatro pontadas nas costas. o que faço? Olhei para fora: tudo cinzento, nublado, uma nuvem pairava na minha janela. Nem conseguia ver os ciganos. tudo
húmido! a roupa pendurada parecia mais molhada que no dia anterior. Eu estava assim, pendurada, molhada, sem acção. dentro de mim uma ideia que
ia acordando: estou livre...liberta...como é ser livre?
Fui até à sala depois de beber 600
ml de água. a sala estava na mesma. ali nada se tinha passado. o computador os dossiers, os livros tudo no mesmo lugar...pareciam aguardar-me esperar que acendesse o candeeiro, o computador, que desse comida ao peixe, pusesse o óleo de eucalipto a queimar e um pouco mais de água nas
frésias. mas desta vez eu não tinha que fazer nada disto. ou teria? ainda
me surgiu a dúvida. mas não. hoje era para eu arrumar esta mesa no lugar dela e seleccionar os livros e documentos que ficavam os que jogava no lixo, os que levava para o 3º espaço...hoje era o dia! hoje era o meu primeiro dia! "o primeiro dia do resto da
minha vida".
Se vissem a postura de profundo desânimo do Gonçalo quando chegou a casa na 2ª feira e perguntou: "Então mãe? Já está?" e quando me viu ali sentada na mesma posição dos
últimos meses, a fazer as mesmas coisas os mesmos gestos...deixou-se cair no sofá muito triste! Oh disseste que ias entregar hoje! Eu sei Gonçalo, mas não consegui...e nem ele sabia o peso que cada dia a mais caía sobre os meus ombros. a culpa. o cansaço. o
desespero. o cansaço...
Mas hoje era quarta. e no dia 7 (os 7 têm sempre esta mágica) depois de Lagos, de uma hora e 100€ na
staples, entrei na secretaria quase na hora de fechar e...ENTREGUEI o meu documento! como entendo o Camões com aquela figura a atravessar os mares de documento na mão. Eu estava assim! eu sentia-me assim! (imaginem que ontem às 21 horas ainda fui debaixo de uma tempestade quase a passar, fazer uma palestra em S. Brás de Alportel!!!) por isso a manhã de hoje estava tão
difícil! tão pesada! Entreguei e entreguei-me... e o meu corpo finalmente falava. Por isso amigos...isso quer dizer que voltei!! Voltaram algumas daquelas reflexões bacocas e outras coisas assim...ainda que também seja verdade que agora vou vadiar de novo, vou andar na rua, na vida por aí...aqueles que moram por estas bandas bem podiam convidar-nos a um copo para por exemplo combinar o jantar, dividir telefonemas aos que não vêm ao blog, enviar cartas e
mails...e ter uma desculpa para os copos...que tal?